Ordem para nova votação anula arranjo de abril e devolve poder de escolha aos 24 deputados estaduais na capital
A determinação de um novo pleito para a escolha do comando do parlamento da Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam) desencadeou um efeito político que ultrapassa a mera dança de cadeiras na mesa diretora. A medida cautelar expedida pelo ministro Flávio Dino desfez um arranjo de bastidores que parecia consolidado e pacificado desde abril deste ano, quando a ascensão de Roberto Cidade (União Brasil) ao cargo de governador do estado forçou uma reorganização consensual no topo do Poder Legislativo.
Ao invalidar a linha sucessória automática estabelecida naquele momento de exceção, a deliberação judicial recoloca em disputa uma das posições mais estratégicas para a governabilidade e para o equilíbrio de forças no Amazonas.
O cenário que culminou na antiga composição da mesa diretora remete à renúncia simultânea de Wilson Lima e Tadeu de Souza aos postos de governador e vice-governador. Com a vacância na chefia do Executivo, o comando da assembleia foi transferido provisoriamente, abrindo uma intensa rodada de negociações internas entre três parlamentares alinhados ao grupo governista.
Na ocasião, os nomes de Adjuto Afonso (União Brasil), sucessor natural por ocupar a vice-presidência, Carlinhos Bessa (União Brasil), apontado como o favorito do novo governante, e Felipe Souza (Podemos), detentor de trânsito fluido entre diferentes correntes, centralizaram as discussões. A engenharia política da época optou pela manutenção de Afonso na presidência, uma solução pragmática que blindou a base aliada contra rachas internos e preservou a unidade governista durante a transição.
A nova votação exigida pelas autoridades judiciais ocorre em uma atmosfera partidária completamente distinta. O estado ingressou em uma fase de pré-campanha majoritária polarizada por quatro grandes blocos de poder, capitaneados por Cidade, Omar Aziz (PSD), David Almeida (Avante) e Maria do Carmo (PL).
Como todas essas forças possuem bancadas atuantes e representação proporcional dentro do plenário, a eleição interna deixa de ser um mero trâmite administrativo e passa a espelhar a real correlação de forças e as alianças de bastidores que disputarão o Palácio Rio Negro.
Apesar da pulverização partidária, a matemática legislativa inicial continua jogando a favor do campo governista. As siglas que dão sustentação ao projeto do novo governador, capitaneadas pelo União Brasil e pelo Podemos, detêm o maior contingente de cadeiras, enquanto os blocos de oposição ou independentes não reúnem, isoladamente, o número de votos necessário para emplacar uma candidatura própria.
Essa conjuntura sugere que o enfrentamento deve permanecer concentrado entre os próprios quadros da base aliada, modificando-se apenas o perfil estratégico exigido para a condução dos trabalhos legislativos na capital.
As candidaturas representam visões divergentes sobre o papel do parlamento. Se Adjuto Afonso encarna a continuidade do pacto de transição e Carlinhos Bessa desponta como a face mais alinhada aos interesses do palácio governamental, Felipe Souza surge nos corredores como o nome capaz de costurar consensos além das divisões partidárias, dialogando inclusive com agremiações adversárias na disputa estadual.
Essa flexibilidade pode se tornar o fiel da balança, uma vez que a anulação do antigo acordo devolve aos 24 deputados estaduais a liberdade de voto e a oportunidade de escolher uma presidência focada na altivez e na autonomia institucional do Legislativo perante o Executivo, tornando o desfecho do pleito interno imprevisível.








