Ingestão diária de líquidos ferventes causa agressão térmica contínua ao tubo digestivo; pesquisadores pedem cautela
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Oxford e publicado no periódico científico International Journal of Cancer revelou que o hábito de consumir café, chá ou outras bebidas em temperaturas elevadas pode triplicar o risco de desenvolvimento de câncer de esôfago. A análise acompanhou dados detalhados de 977 homens e mulheres de meia-idade — amostragem com representatividade estatística equivalente a quase 1 milhão de indivíduos —, constatando que a ingestão de líquidos servidos a 65°C ou mais eleva em até três vezes as chances do surgimento de tumores, em comparação com o consumo de bebidas mornas.
O mecanismo biológico responsável pelo aumento do risco está associado ao dano térmico direto causado no percurso do líquido. Ao descer em alta temperatura pela garganta até o estômago, o fluido incandescente agride a mucosa e o revestimento celular do esôfago.
Esse processo recorrente de queimadura e microlesão celular abre margem para mutações no tecido epitelial. O risco torna-se ainda mais pronunciado entre pessoas que ingerem seis ou mais xícaras de bebidas ferventes por dia, patamar facilmente atingido no cotidiano, já que chás recém-preparados com água fervida costumam sair da chaleira entre 90°C e 95°C.
Apesar do expressivo salto na probabilidade relativa, a pesquisadora principal do estudo, Keren Papier, ressalta uma observação importante: a incidência absoluta desse tipo de câncer na população em geral permanece baixa.
Papier destacou que o achado científico reforça evidências prévias observadas na América do Sul, onde pesquisas sobre o consumo frequente do chimarrão e do mate quente já haviam demonstrado correlação idêntica entre o calor das bebidas e a agressão ao aparelho digestivo. A orientação preventiva recomendada pelos médicos é simples: aguardar alguns minutos para que o líquido atinja uma temperatura morna e segura antes do primeiro gole.
“A lesão térmica repetida no revestimento celular do esôfago causada pelo líquido em altas temperaturas é o fator decisivo para o aumento do risco. Esperar a bebida esfriar é uma medida simples e eficaz de prevenção”, destacou a pesquisadora de Oxford, Keren Papier.
Mecanismo de lesão térmica e medidas de prevenção
Os achados da pesquisa de Oxford e as recomendações práticas de saúde englobam os seguintes pontos:
Líquidos a 65°C ou mais causam agressão térmica contínua às células esofágicas, abrindo caminho para o desenvolvimento tumoral.
Ingestão de seis ou mais xícaras diárias de bebidas ferventes eleva substancialmente a probabilidade de lesões no tubo digestivo.
Água ferve a 100°C e chás recém-preparados atingem entre 90°C e 95°C, patamares muito superiores ao limite de segurança de 65°C.
Aguardar alguns minutos até a bebida atingir temperatura morna elimina o risco de queimaduras na mucosa.
Pesquisas sobre o hábito do mate quente na América do Sul já sustentavam a correlação entre calor e lesões esofágicas.








