Em artigo, pesquisador da Fiocruz aponta cenário de colapso sanitário na Amazônia, agravado por desmatamento, mineração e falta de saneamento básico
O avanço do desmatamento, da mineração e de outras atividades predatórias está agravando a precarização sanitária da Amazônia, alerta o epidemiologista Jesem Orellana, da Fiocruz Amazônia, em artigo publicado no recém-lançado Atlas da Amazônia Brasileira. A publicação reúne 32 textos de especialistas e está disponível gratuitamente em formato digital. No estudo, Orellana denuncia o impacto direto dessas ações na saúde da população e destaca a urgência de políticas públicas que valorizem os saberes tradicionais e ampliem o acesso a serviços de saúde na região, especialmente em ano de visibilidade global com a COP 30 em Belém.
Segundo Orellana, o avanço de atividades predatórias tem impactos sanitários, sobretudo numa região onde o acesso à saúde pública é dificultado por peculiaridades territoriais e saneamento básico precário. Promover acesso à saúde e valorizar conhecimentos tradicionais é importante para combater esse quadro, conforme explica o autor. “Devido a sua extensão territorial, diversidade sociocultural e peculiaridades do clima, vegetação e relevo, os desafios sanitários na Amazônia são historicamente complexos e contrastantes, não apenas ao se confrontar cenários entre populações urbanas e rurais, acesso a serviços de saúde em municípios de menor e maior porte populacional, condições de vida e saúde entre indígenas e não-indígenas, mas ao se comparar indicadores de saúde da população geral da região Norte àqueles da sudeste e sul do país”, pontua.
O pesquisador ressalta que, nas últimas quatro décadas e em contexto de extremas mudanças climáticas, o bioma amazônico tem sido criticamente ameaçado pelo avanço predatório do agronegócio e da pesca industrial, da extração ilegal de madeira e de ouro, bem como pelas devastadoras queimadas de extensas áreas florestais. “Essas intervenções, em maior ou menor intensidade, têm impactado negativamente a saúde humana, seja mediante resíduos potencialmente tóxicos no ar, água e solo ou mesmo alterando a relação entre humanos e diferentes seres vivos, a exemplo do que ocorre com doenças endêmicas, dentro e fora de centros urbanos”, afirma. Na região Norte, segundo a Pesquisa Nacional de Saneamento de 2017 do IBGE, a porcentagem para os volumes diários de esgoto gerado e tratado foi de apenas 16,4%, a menor entre as regiões do Brasil.
“Os dados são condizentes com a elevada ocorrência de Doenças Relacionadas ao Saneamento Ambiental Inadequado (DRSAI). Não é coincidência que, em 2021, o número de internações hospitalares por dengue no Norte aumentou 27%, em comparação a 2020, contrariando o padrão nacional de queda. Em geral, este padrão se repete para internações por leptospiroses ou diarreia e gastroenterite com origem infecciosa presumível. Nesse precário cenário de saneamento, há um leque de doenças infecciosas e negligenciadas, endêmicas em regiões de baixo desenvolvimento humano e social, associadas a incapacidades, adoecimento e mortes evitáveis”, destaca Orellana, no artigo.
O pesquisador explica que, entre os exemplos mais impactantes, em termos de carga de doença, estão a malária, a tuberculose, o HIV/AIDS e a febre amarela. “O mosaico sanitário amazônico, ainda conta com o trágico desenvolvimento de epidemias de doenças emergentes e reemergentes, como a febre oropouche em 2024, com inéditos 5.644 casos confirmados até 03 de setembro ou 71,2% do total nacional. A pandemia de Covid-19, além do seu indiscutível impacto sobre a mortalidade, sobretudo em Manaus, ao protagonizar chocantes colapsos funerários, hospitalares e ambulatoriais, parece ter ampliado vulnerabilidades assistenciais e socioeconômicas, fertilizando o cenário à deflagração de mais efeitos residuais pandêmicos”, revela.
O epidemiologista chama a atenção também para o excesso de suicídios, entre março de 2020 e fevereiro de 2022, em mulheres com 30-59 anos (27%), bem como os cerca de 70% de mortes maternas excedentes no norte amazônico, entre março de 2020 e fevereiro de 2022. “Esses dados refletem bem a gravidade da crise sindêmica, dado o claro comprometimento de indicadores de Saúde e Bem Estar que o Brasil havia se comprometido a melhorar no âmbito dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Outra grave ameaça é a recusa vacinal, sobretudo em crianças com um ano ou mais. No fim de 2022, as coberturas vacinais da tetra viral (sarampo, caxumba, rubéola e varicela), da tríplice bacteriano (difteria, tétano e pertussis) e da hepatite A, se situaram abaixo de 7%, 55% e 60%, respectivamente. Abaixo das coberturas de outras regiões do Brasil e longe dos 95% esperado”, evidencia.
Medicina Indígena
Na publicação, Jesem Orellana divide espaço com o líder indígena, ativista e educador amazonense Gersem Baniwa, que aborda a questão da Medicina Indígena. Para ele, assim como na Medicina, a arte de cuidado de saúde e cura dos povos indígenas é balizada pelas teorias, fundamentos e concepções que constituem um conjunto de elementos concretos e “abstratos” (elementos fitoquímicos e metafísicos), e praticados de forma especializada pelas pessoas que passaram por formação para exercer tal ofício. “Cada povo tem suas próprias instituições de formação de seus especialistas. Assim, os especialistas indígenas são pessoas que passaram por uma rigorosa formação e treinamentos, sob orientação de especialista formador. As noções de doença e saúde não se restringem ao aspecto biológico”, descreve.
De acordo com Baniwa, esse é o ponto central que diferencia a medicina indígena do modelo biomédico de cuidado de saúde, que intervém sobre o corpo a partir da noção do meramente biológico. “Os estudos entre os povos indígenas do Alto Rio Negro, mostram que as tecnologias de cuidado de saúde e cura são fundamentalmente: Bahsesse (benzimentos), fórmulas metaquímicas e metafísicas evocadas pelos especialistas para proteção, tratamento e curar de doenças, além de plantas medicinais”, explica.








