Relatório da Polícia Civil expõe cronologia perturbadora: entre prescrições erradas e pedidos de socorro, Juliana Brasil negociou cosméticos via PIX; delegado vê “indiferença” e aponta homicídio qualificado.
O luto da família do pequeno Benício Xavier, 6 anos, que completou três meses nesta semana, ganhou contornos de indignação com a revelação de dados extraídos do celular da médica Juliana Brasil. O relatório da Polícia Civil do Amazonas expõe uma cronologia perturbadora: no ápice de uma crise respiratória que levaria à morte da criança, a profissional dividia sua atenção entre consultas técnicas e a venda de cosméticos.
Para o delegado Marcelo Martins, titular da 24ª DIP e responsável pelo inquérito, o conteúdo das mensagens muda o patamar da investigação. “O fato de a médica estar vendendo produtos de beleza enquanto a vítima estava entre a vida e a morte denota indiferença. Isso configura o dolo eventual, caracterizando homicídio qualificado doloso”, afirmou a autoridade policial.
Banalidade em meio ao caos
As mensagens revelam que Juliana foi acionada para atender Benício às 14h37 do dia 22 de novembro de 2025. O que se segue é uma mistura de imperícia e distração. Às 14h44, a própria médica admite a um colega, via texto, ter errado a prescrição de um medicamento. Entre 15h13 e 15h38, ela busca orientações desesperadas sobre como proceder com a criança, que já apresentava taquicardia severa após receber uma overdose de adrenalina na veia.
Contudo, o ponto de maior ruptura ética ocorre às 15h46. No momento em que Benício agonizava, a médica iniciou uma negociação comercial com uma contata identificada como “Débora Amanda – Beauty”.
“Sim, era 230, deixei 190 pra você”, escreveu a médica, referindo-se ao valor de uma maquiagem, chegando a enviar emojis e sua chave PIX, para logo em seguida, um minuto depois, retomar o contato com a equipe médica para receber instruções de socorro.
Cronologia da negligência (22 de novembro de 2025)
- 14h37: Juliana inicia o atendimento de Benício.
- 14h44: Confissão de erro na prescrição de medicamento via mensagem.
- 15h13 – 15h38: Consulta técnica com colegas sobre o quadro agravado.
- 15h46: Interrupção Comercial. Negociação de maquiagem e envio de PIX no auge da crise do paciente.
- 15h47: Retorno às instruções de socorro.
- 16h15: Pedido de transferência tardia para a UTI.
Erro fatal
A investigação aponta que a tragédia foi desencadeada por uma aplicação indevida de adrenalina, que deteriorou rapidamente o estado de saúde do menino. Benício resistiu até o dia seguinte, falecendo em 23 de novembro.
Até o momento, a médica Juliana Brasil e a técnica de enfermagem Raíza Bentes respondem ao processo em liberdade. Com os novos dados da quebra de sigilo telemático, o inquérito caminha para o indiciamento final, trazendo à tona um debate necessário sobre a ética médica e o uso de dispositivos móveis em ambientes de alta complexidade.








