Paralisação de auditores após interferência de Luiz Marinho na ‘lista suja’ deixa o país sem operações em janeiro; e-mails revelam que falta de apoio da PF, alegada pelo governo, é questionável

Por: Amanda Audi
Após as denúncias de trabalho escravo baterem recorde em 2025, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) se prepara para o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, em 28 de janeiro, em meio a uma paralisação de auditores fiscais do trabalho que suspendeu as operações de resgate desde o início de dezembro de 2025 – e segue sem prazo para terminar.
A crise se agravou após o próprio governo federal obter uma liminar que adiou a inclusão de três empresas na chamada lista suja do trabalho escravo – cadastro oficial que reúne empregadores flagrados explorando mão de obra em condições ilegais. A medida, articulada pela Advocacia-Geral da União (AGU), é considerada incomum por auditores e integrantes do Ministério Público do Trabalho (MPT).
POR QUE ISSO IMPORTA?
- Uma paralisação de 400 auditores fiscais do trabalho, iniciada em dezembro do ano passado, pode deixar o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo sem operações de resgate este ano;
- Em 2025, o Brasil bateu recorde de denúncias de trabalho escravo, com 4.515 registros ao longo do ano, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego.
Cerca de 400 auditores fiscais do trabalho paralisaram as atividades em protesto após o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, interferir em três processos que haviam concluído pela inclusão das empresas na lista suja. Para eles, as interferências de Marinho, chamadas avocações, como se chama o ato de chamar para si a competência de analisar ou definir um processo, criaram uma “terceira instância recursal ilegítima”, enfraqueceram a Auditoria Fiscal do Trabalho e aumentaram a insegurança jurídica das operações.

Como consequência da paralisação, quatro operações de resgate de trabalhadores em situação análoga à escravidão previstas para janeiro foram canceladas. Elas aconteceriam nos estados de Piauí, São Paulo e Minas Gerais. Também não devem ocorrer novas operações nacionais em fevereiro, já que elas devem ser programadas com antecedência.
Greve começou em protesto pela interferência do ministro do Trabalho, Luiz Marinho, na inclusão de empresas na lista suja do trabalho escravo.
Publicamente, o governo tem atribuído os cancelamentos à falta de apoio da Polícia Federal (PF). Ofícios assinados pelo coordenador-geral de Fiscalização para Erradicação do Trabalho Análogo ao de Escravizado, André Roston, afirmam que a PF não designou agentes para acompanhar as ações em janeiro, apontado como um “período com elevado quantitativo de servidores em férias”. Sem a presença policial, as operações não podem ser realizadas.
Documentos obtidos pela Agência Pública, no entanto, contradizem essa versão. Eles mostram que os policiais federais que acompanhariam as operações já haviam sido selecionados e que seus nomes foram encaminhados ao MTE ainda em novembro de 2025.
Um e-mail da Polícia Federal para a Coordenação-Geral de Combate ao Trabalho Escravo, datado de 28 de novembro de 2025, indica o nome de dois policiais federais para a operação, prevista para ocorrer em janeiro no Piauí. “As passagens aéreas terão que ser no dia 20/01/2026 para ambos”, diz a mensagem.
Em 4 de dezembro, logo após o início da paralisação dos auditores, André Roston enviou um ofício apontando que “infelizmente não será possível o atendimento nas datas programadas” para a operação no Piauí. Ele alega que muitos policiais estão de férias e que os demais que atuam no estado estavam comprometidos com outras ações. O mesmo aconteceu com as outras operações previstas.
Fonte: Pública








