Focos de calor no Amazonas dobraram em outubro, aponta Inpe; maior parte dos bairros manauaras registrou ar péssimo
A população de Manaus voltou a vivenciar uma manhã sufocante nesta quinta-feira (8), com a cidade completamente encoberta por uma névoa densa e a pior marca de qualidade do ar observada ao longo de todo o ano de 2026. Mapeamentos do Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (SELVA), mantido pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA), constataram um pico impressionante de 490,1 µg/m³ de partículas finas (PM2,5) em um dos sensores da rede de monitoramento ao longo da madrugada.
Esse patamar é 71% superior ao pico negativo anterior observado no ano, registrado durante o mês de setembro, quando os marcadores haviam atingido a faixa de 286,2 µg/m³. Na metodologia do sistema SELVA, qualquer índice de poluição atmosférica que ultrapasse a marca dos 125 µg/m³ já recebe enquadramento na categoria “péssima”.
Ao longo do período noturno e das primeiras horas do dia, as medições sofreram disparadas consecutivas. Além do topo de 490,1 µg/m³, outras estações espalhadas por áreas estratégicas da capital amazonense registraram números severos, marcando 485,1 µg/m³, 393,1 µg/m³, 354,3 µg/m³ e 341,4 µg/m³.
Cenário de queimadas
Essa degradação expressiva da atmosfera é consequência direta de uma sucessão de focos de incêndio deflagrados tanto no perímetro urbano de Manaus quanto em municípios do interior. Na Zona Leste da capital, um incêndio que atingiu uma área de vegetação e um local utilizado para descarte irregular de resíduos no Distrito Industrial II permaneceu ativo pelo segundo dia seguido na quarta-feira (7).
As chamas alcançaram uma diversidade de resíduos altamente poluentes, como plásticos, borrachas, papéis, solventes e tonéis, lançando uma densa e escura coluna de fumaça na atmosfera regional. Por conta do crime ambiental e da grave contaminação, o Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) autuou o proprietário do terreno em R$ 5,5 milhões em multas após fiscalização no local.
Somado aos episódios de queimadas urbanas, o território estadual vem registrando uma escalada alarmante no número de focos de calor. Segundo dados compilados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o Amazonas registrou 554 focos de calor nos primeiros dias de outubro — o dobro do volume observado durante o mesmo período no ano de 2025.
Paralelamente, a Prefeitura de Manaus destacou na quarta-feira que o forte fumaceiro que encobre a cidade tem ligação direta com as queimadas no interior, com destaque para ocorrências em municípios vizinhos como Itacoatiara, Careiro da Várzea, Manaquiri e Autazes.
Dessa forma, o cenário vivenciado nesta quinta-feira resulta da convergência entre os incêndios locais na capital, as queimadas em cidades do interior e o salto estatístico nos focos de calor em todo o Amazonas. A leitura detalhada dos sensores do SELVA confirma que a concentração de poluentes atingiu seus níveis mais críticos durante as horas da noite e da madrugada.
Alertas à saúde
O enquadramento do ar como “péssimo” representa a presença maciça de partículas nocivas que conseguem alcançar as regiões mais profundas do aparelho respiratório. Crianças, idosos e pessoas que já enfrentam quadros crônicos respiratórios ou cardiovasculares formam o grupo de maior vulnerabilidade diante desse quadro de contaminação.
O pico de contaminação se consolidou entre a noite de quarta-feira e as primeiras horas desta quinta-feira. Além do forte e persistente cheiro de queimado sentido por moradores em praticamente todas as zonas da cidade, imagens gravadas pela população mostraram a paisagem urbana totalmente tomada por um véu esbranquiçado, sinalizando a altíssima densidade de agentes poluentes.
Nas primeiras horas da manhã, o monitoramento confirmou que o problema atingiu a cidade de forma generalizada. Dos 15 pontos de medição exibidos no mapa ambiental da instituição, 11 apresentavam enquadramento na faixa “péssima”.

Entre os pontos com índices mais pesados estavam o eixo Armando Mendes/Coroado (com 199,6 µg/m³) e o bairro Puraquequara (com 188,1 µg/m³).
A listagem de regiões com ar em nível crítico incluiu também as zonas de Morro da Liberdade/Educandos (147,5 µg/m³), Chapada/Parque 10 (143,8 µg/m³), São Jorge/Compensa (141,5 µg/m³) e Distrito Industrial I/Crespo (139,3 µg/m³).
Completam a lista de áreas afetadas o Zumbi dos Palmares/Distrito Industrial II (137,7 µg/m³), o Coroado (137,4 µg/m³), o trecho Nossa Senhora das Graças/Petrópolis (133,9 µg/m³), a área de transição Coroado/Armando Mendes (131,1 µg/m³) e o setor Aparecida/Centro (125 µg/m³).
Impactos do particulado fino e aumento dos focos de calor
A piora substancial da atmosfera ocorre em um momento em que as estatísticas ambientais do Inpe confirmam o salto de 554 focos de calor no início de outubro — o dobro do apurado no mesmo período de 2025. A integração entre incêndios na capital, queimadas no interior e fatores meteorológicos vem favorecendo a retenção e o deslocamento dessa grande massa de poluição sobre a mancha urbana de Manaus.
As partículas conhecidas como PM2,5 exigem atenção redobrada das autoridades de saúde por possuírem dimensões microscópicas, o que permite que entrem profundamente no sistema respiratório. A exposição contínua e prolongada a essas concentrações pode acarretar irritação nos olhos e na garganta, crises de tosse, coriza, dores de cabeça, tonturas, chiado no peito e falta de ar, além de desencadear crises graves em pacientes com histórico médico prévio.
Recomendações e canais de atendimento
Enquanto perdurarem os altos níveis de poluentes na atmosfera, a orientação expressa dos profissionais de saúde é suspender exercícios físicos ao ar livre, como corridas, caminhadas e pedaladas. Também é fundamental reforçar a ingestão diária de água e manter olhos e vias aéreas protegidos.
Nos momentos em que for inevitável transitar em ambientes abertos, recomenda-se a utilização de máscaras de proteção adequadas, do tipo N95, que ajudam a filtrar a inalação de micropartículas.
Para sintomas leves de desconforto respiratório, a recomendação é buscar atendimento em uma Unidade Básica de Saúde (UBS). Em situações mais graves ou com presença de dificuldade para respirar, o paciente deve procurar unidades de urgência e emergência ou acionar o Samu pelo número 192.
A população também pode colaborar denunciando focos de queimada e agressões ambientais à Guarda Municipal pelo telefone 153. No momento do registro da denúncia, é importante detalhar o endereço exato, o horário do fato e, sempre que possível, anexar fotos ou vídeos do local atingido.








