Atual campeã apresentou o enredo “Terricídio” no Parque do Ingá com foco na ecologia e direitos humanos
Encerrando o 28º Festival de Cirandas de Manacapuru (a 68 quilômetros de Manaus), a Ciranda Tradicional ocupou o Parque do Ingá, no domingo (30/08), com o espetáculo “Terricídio: Quando a Terra Enfrenta o Genocídio”. Atual campeã, a agremiação fechou as noites de apresentações levando para a arena uma narrativa centrada na defesa da Amazônia, na resistência dos povos tradicionais e na necessidade urgente de preservação da floresta.
Ao longo da exibição, a Tradicional percorreu uma trajetória marcante: partiu de uma terra devastada pela exploração, atravessou a força da resistência comunitária e culminou em uma mensagem de esperança e renovação.
Além do forte apelo ambiental, a apresentação incorporou representatividade e pautas sociais à construção cênica. A ciranda levantou bandeiras contra a intolerância religiosa e a homofobia, alinhando o combate à destruição do território à valorização dos povos indígenas, das religiões de matriz africana e da diversidade.
Para o presidente da agremiação, Magal Pinheiro, pisar na arena na última noite do festival simbolizou o encerramento de meses de dedicação coletiva.
“É um dia tão esperado. Isso representa sonhos que a gente sonha todos os anos. Cada ano é diferente. Representa emoção, amor e, principalmente, trabalho, porque são muitas mãos que fazem a ciranda”, afirmou.
O dirigente ressaltou a responsabilidade de defender o troféu no encerramento da festa. “Fechar o Festival de Cirandas é um desafio enorme. A gente tenta fazer o melhor e agora fica a expectativa de buscar o bicampeonato”, completou Magal.
Espetáculo cênico e apoteose nas arquibancadas
A apresentação começou com a encenação dramática do confronto histórico entre colonizadores e povos originários. O cordão de entrada dividiu-se em dois momentos, integrando dança e performance teatral para contextualizar as origens das lutas retratadas no enredo.
O ponto alto da abertura ocorreu com o surgimento de uma monumental alegoria representando a batalha pelo território. A estrutura cênica dialogou diretamente com a evolução dos brincantes, unificando cenografia, interpretação e coreografia no centro do Parque do Ingá.
A partir desse marco, a Tradicional desenrolou as etapas de “Terricídio”, jogando luz sobre dilemas históricos e contemporâneos da região — como o desmatamento, a poluição dos rios e os impactos das mudanças climáticas —, destacando a altivez daqueles que protegem o ecossistema amazônico.
Fora do piso de apresentações, a torcida deu um show à parte. Munida de bandeiras e elementos cenográficos, a Torcida Organizada da Tradicional (TOT) executou coreografias em sincronia com o espetáculo, transformando as arquibancadas em uma extensão viva da arena.
Tradição, reencontros e renovação
A noite festiva também celebrou laços com o passado da vermelha e branca. O coreógrafo Felipe Pipow, responsável pelo cordão de entrada, retornou à agremiação após 17 anos e celebrou o contato com a nova safra de artistas.
“É um momento nostálgico. Voltar depois de quase duas décadas é algo muito especial. É uma geração nova que está aqui e acho isso maravilhoso. Sigo firme defendendo essa cultura e esse folclore na Ciranda Tradicional”, destacou Pipow.
Essa renovação do folclore atrai jovens de diversos cantos do estado. Natural de Tefé, o cirandeiro Ronei Santos, que integra a equipe há três anos, destacou a dança como ferramenta de conscientização social.
“O nosso tema é o terricídio, a morte da Terra, algo que estamos vivendo na pele com as queimadas, o desmatamento e as mudanças climáticas. Precisamos usar nossa arte e nossa dança para alertar o mundo”, declarou Ronei.
Apuração define o campeão de 2026
Com o fecho da Tradicional, o 28º Festival de Cirandas de Manacapuru concluiu a temporada de apresentações, que contou ainda com a Flor Matizada na sexta-feira (28/08) e a Guerreiros Mura no sábado (29/08).
A apuração das notas ocorre nesta segunda-feira (31/08), às 15h, no Parque do Ingá. O título de 2026 será disputado entre Guerreiros Mura e Ciranda Tradicional.
A Ciranda Flor Matizada não participará do julgamento oficial devido à morte do artista plástico Jone Salgado, ocorrida durante a montagem das alegorias antes do desfile. A agremiação receberá a homenagem com o título Hors-Concours.
Reconhecido como patrimônio cultural, o Festival de Cirandas de Manacapuru reafirma seu papel na celebração da identidade amazonense, movimentando centenas de empregos diretos e indiretos e mantendo viva uma das expressões artísticas mais vibrantes do Norte do país.
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