Defesa do casarão histórico propõe desapropriação ou tombamento estadual para salvar o bar
A boemia e a memória afetiva do Centro Histórico de Manaus buscam frentes alternativas para manter viva uma de suas maiores lendas urbanas. Em coletiva de imprensa realizada nesta segunda-feira (13/07/2026), a administração do tradicional Bar do Armando defendeu a construção de uma solução consensual e política para evitar a desocupação e assegurar a permanência do estabelecimento no casarão onde fincou suas raízes.
O plano de sobrevivência do reduto cultural, hoje amparado provisoriamente pela suspensão de uma ordem judicial de despejo, aposta na sensibilização de parlamentares e gestores públicos para viabilizar decretos de desapropriação ou leis de tombamento material, enquanto a assessoria jurídica contesta o andamento do litígio nos tribunais locais.
A estratégia traçada pela família do fundador, o saudoso português Armando Soares, busca mobilizar os poderes públicos diante do risco de descaracterização do coração histórico da capital. A proposta defendida pela administradora Ana Cláudia Soares prevê a desapropriação do imóvel pelo Executivo, seguida de uma concessão de uso mediante o pagamento regular de aluguel por parte do estabelecimento.
No campo do Legislativo, o advogado Fausto Mendonça sugere a aprovação de uma lei municipal ou estadual que declare o Bar do Armando como patrimônio cultural material, uma vez que o título de patrimônio imaterial já concedido protege apenas o valor histórico e a tradição da marca, sem conferir segurança jurídica para a permanência física no endereço.
O embate nos tribunais segue em compasso de espera enquanto os representantes aguardam o julgamento de um recurso colegiado pelas Câmaras Reunidas da corte estadual de Justiça, rito previsto para ocorrer nos próximos meses.
A defesa técnica aponta que houve desequilíbrio processual e atropelo de garantias constitucionais na condução das ações, citando cerceamento de defesa e falhas de comunicação no envio de informações a tribunais superiores. A coordenação do bar aproveitou a oportunidade para desmentir boatos que circulavam nas redes sociais, esclarecendo que a família não pretende ingressar com pedido de usucapião por considerar a medida moralmente inadequada frente aos anos de vigência de contratos de locação, além de negar a existência de débitos acumulados de aluguel com a Igreja ou qualquer proibição de acesso a religiosos no local.
O manifesto em prol do estabelecimento recebeu o apoio público de expoentes do cenário artístico do estado, como o poeta e compositor Rui Machado, que compareceu ao local para endossar o clamor pela preservação do espaço.
Fundado na década de 1970, o bar consolidou-se como um dos principais palcos de debates intelectuais e políticos do Amazonas, servindo de ponto de encontro para figuras históricas que vão de ex-governadores a professores, ativistas e juristas renomados.
A disputa pelo casarão remonta a 2015, quando a Diocese do Alto Solimões, proprietária do imóvel, manifestou o interesse de retomar a estrutura para instalação de sua sede administrativa. Após uma série de mediações públicas e contratos de curta duração sem previsão de renovação, o caso desaguou em ações de despejo e renovatórias que, em 2025, resultaram em uma sentença favorável à retomada do bem, decisão que agora encontra-se sob efeito suspensivo.








